Intimidade Emocional
por Dimas Calegari
“Fazemos amor” como
se amor e sexo fossem a mesma coisa. A sexualidade e a intimidade física são
estímulos fortes e importantes para a vida, mas não geram vínculos nem mantêm a
relação estável, necessária para os cuidados e a proteção da vida. A sexualidade
e a intimidade física atraem as pessoas, porém, como estímulos vitais têm vida
curta. Em pouco tempo “conhecemos” a outra pessoa, seu corpo, suas reações
físicas, seus desejos e prazeres. Deixa de existir algo novo e excitante e a
relação começa a ser monótona e não estimulante. A intimidade física, sem a
intimidade emocional, não sustenta a relação por longo tempo.
Para compreender melhor a diferença entre a
intimidade física e a emocional, vamos fazer uma distinção entre interação
e relação.
A interação é o que ocorre num nível
superficial, quando nos relacionamos a partir dos papéis que desempenhamos,
como, por exemplo o médico, o professor, o freguês, o ilustre desconhecido da
rua, etc. A interação obedece a regras específicas dos papéis desempenhados; em
geral é mais superficial e dirigida mentalmente. Olhamos para a outra pessoa,
percebemos o papel que desempenha, avaliamos, julgamos, criticamos, damos
opinião ou conselhos, etc. A interação é útil e necessária para a convivência
social. Não somos íntimos de todas as pessoas nem estamos voltados para a
intimidade com o guarda da esquina, o frentista do posto de gasolina ou o caixa
do supermercado. Entretanto, mantemos com essas pessoas uma interação cordial e
socialmente aceitável. Normalmente a interação se dá no nível verbal e com um
mínimo de toques ou de olhares mais diretos. Mantemos inclusive uma “distância”
física convencional. Quando num elevador as pessoas são obrigadas a manter uma
distância menor que a convencional, é evidente o incômodo geral e a busca de
alguma interação verbal para disfarçar o constrangimento.
A relação começa geralmente pelo nível
energético. Basta um olhar, um toque sutil ou uma palavra “casual” para que
algo aconteça entre duas pessoas. Nestes simples atos elas expõem anseios que
vêm de sua Essência. Geralmente acompanha-se de um misto de curiosidade e
vergonha frente à exposição. É algo que acontece independente da vontade
consciente de ambos. Começam a se expor emocionalmente! Se as pessoas não se
assustarem e fugirem, a aproximação será progressiva, levando a uma exposição
profunda das almas envolvidas. É a intimidade emocional estabelecendo-se. Ela
ocorre quando a Alma da outra pessoa é vista, ouvida, recebida, nos toca em
nossos sentimentos e emoções e temos uma resposta emocional para ela. A
intimidade emocional existe quando existe uma verdadeira relação, isto é,
quando existe um Eu que se expressa e tem no outro um Tu que o
recebe, se deixa tocar e tem uma resposta emocional para dar. Estamos além dos
papéis que desempenhamos! Passamos horas conversando, falando de nós mesmos e
ouvindo deslumbrados os relatos da outra pessoa. A necessidade de intimidade
física parece não existir num primeiro momento e pode mesmo não existir, quando
a intimidade emocional leva as pessoas a estabelecerem uma profunda amizade.
Ficamos excitados vitalmente, voltamos a sonhar, sentimo-nos reconhecidos em nosso Eu! Se a relação
caminha para além de uma amizade profunda, a necessidade de intimidade física
torna-se progressivamente mais forte, ativando desejos de contato físico.
Estamos apaixonados! Na Psiquiatria do início do século XX falava-se da paixão
como um estado alterado, um estado patológico! Na realidade a paixão é a
expressão de um profundo anseio humano! O anseio de sentir-se recebido,
reconhecido e reafirmado na expressão genuína de seu Eu.
Antes da liberação sexual existiam duas
situações definidas: a relação sexual amorosa e a interação sexual
profissional. A antiga “prostituta” era uma pessoa que desempenhava um papel,
a partir do qual tinha um comportamento esperado e pelo qual era retribuída
financeiramente. Ela não beijava seu freguês; o beijo era uma intimidade
emocional reservada ao seu amado! Atualmente temos, de forma análoga a garota e
o garoto de programa. Desempenham papéis.
Atualmente criamos mais uma categoria, a da interação
sexual não profissional. Inventamos o “ficar”, situação na qual as pessoas
podem ter intimidade física sem intimidade emocional. O papel da mulher
liberada sexualmente e do homem descompromissado ajustam-se perfeitamente!
Muitas vezes, a partir dessa intimidade física surge a intimidade emocional e a
relação amorosa se estabelece. Mesmo na situação do garoto e da garota de
programa, quando a interação prolonga-se, pode estabelecer-se a intimidade
emocional e a relação tornar-se amorosa, levando à formação do casal e da
família. A busca da interação sexual profissional, geralmente indica
dificuldades de estabelecer relações amorosas, mas a natureza e a alma, às
vezes pregam peças até nos mais evasivos!
A liberdade sexual e a facilidade de
intimidade física nos trouxeram prazeres e variedade de experiências, mas nos
tirou a possibilidade de sonhar e de sentir aquela intensa excitação vital do
começo da paixão! Não temos tempo para esperar acontecer. A interação sexual
banalizou a sexualidade!
Independente de como chegamos à paixão, para
que esta tenha continuidade com a relação amorosa duradoura, dependerá da
disponibilidade de ambos em preservar a intimidade física e emocional. Já disse
acima que a intimidade física sozinha, não preserva a relação nem traz os
cuidados e a proteção para a vida! O amor cria vínculos duradouros e intimidade
emocional e nesta temos uma fonte inesgotável de estímulos novos. Durante toda
a nossa existência não chegaremos a nos conhecer integralmente e muito menos a
conhecer totalmente a outra pessoa. Quando o casal mantém a intimidade física e
emocional, a relação será fonte inesgotável de estímulos para a vida, para o
auto-conhecimento e para o conhecimento da outra pessoa. Preservar a intimidade
emocional é uma questão de sobrevivência da própria relação amorosa!
Descrevemos até aqui as condições necessárias
para a interação e a relação saudáveis. Existem, entretanto muitas inadequações
que frustram a ambas. Normalmente estão ligadas à questão dos limites pessoais.
A interação aceitável socialmente pede que
cada participante se mantenha dentro de seu papel específico e que obedeça as
regras do mesmo. Se uma pessoa rompe a distância convencional, se olha de forma
muito intensa, toca fisicamente de forma íntima ou se expressa emocionalmente,
não importando se a emoção é amorosa ou agressiva, estará ultrapassando as
regras da interação. Esta atitude a torna invasiva para a outra pessoa e a
interação se rompe ou torna-se difícil. Amparadas na liberdade sexual ou na
crença de que expressar emoções é sempre saudável, muitas pessoas expõem-se
emocionalmente com facilidade e sem limites. São invasivas e inadequadas
socialmente. Outras pessoas apresentam limites tão estreitos e preconceituosos
que impedem a mínima cordialidade social. São fechadas como caramujos em suas
conchas, impedidas de se relacionarem e até de interagirem socialmente.
A relação pede por intimidade emocional.
Quando um olhar, um toque, uma palavra nos move internamente, foi despertada a
intimidade emocional. Pode acontecer que esta situação nos assuste e então
fugimos do contato ou respondemos racionalmente expressando uma opinião, um
conselho ou mesmo uma interpretação. Evitamos nossa resposta emocional. Pode
ser também que não estamos disponíveis para a intimidade com a pessoa em questão. Não existe
um Tu respondendo ao Eu que se expressa. Normalmente a ausência
de resposta emocional é o indicativo para a outra pessoa, de que deve manter-se
no nível da interação. Se ela insiste na direção da relação, é bem provável
tratar-se de pessoa invasiva e sem limites. Pode ser também que tenhamos
limites tão estreitos que impossibilitam a relação!
Iniciamos dizendo que o que mais necessitamos
atualmente é de intimidade emocional. Sem intimidade emocional sentimo-nos
solitários e a vida torna-se árida. Freqüentamos festas, bares, happy hours
e atualmente a Internet na busca de relações significativas. Passamos longo
tempo aprendendo a interagir socialmente, mas não temos uma escola onde
possamos aprender a nos relacionar. A aprendizagem da intimidade emocional
começa dentro da família e nossos pais sofreram dos mesmos males ou talvez de
males piores que os nossos. Nossas dificuldades frente à intimidade emocional
frustram o anseio maior que é de expressar nosso Eu, ser recebido, reconhecido
e reafirmado em nossa expressão. O resultado é a solidão ou as interações pouco
significativas.
Evidentemente não existem regras do tipo
“faça você mesmo” a ensinar. Existem algumas orientações que podem nos ajudar
nesta empreitada, como as que apresento abaixo.
Aprendendo a intimidade emocional
A intimidade emocional ocorre internamente
quando estamos em contato com nosso Eu, nossa Essência. Neste momento desfazem-se
os conflitos internos e nos sentimos inteiros. A partir desse lugar interior,
podemos sair da interação e entrar na relação. Estamos prontos
para a intimidade emocional externamente. É o momento onde o Eu e o Tu existem
e se reafirmam. O Eu pode ser sustentado externamente, quando existe um Tu que
o recebe e o reafirma e o Tu pode emergir quando existe um Eu que se expressa e
se comunica. Quando isto ocorre existe a verdadeira relação! Fora deste
momento, somos papéis que interagem com outros papéis. Não existem
pessoas. Tornamo-nos conceitos indiferenciados, genéricos, “coisificados” e
“coisificando” o próprio mundo. E este perde seu encantamento! Ler: EU-TU de
Martin Buber.
Orientações para a intimidade emocional
1- Fale de si próprio, deste seu momento e
não do outro ou de sua história.
2- Retome constantemente suas sensações
corporais, sentimentos e emoções.
3- Expresse o que sente através de suspiros,
choro, emoção, anseios de tocar, apoiar o outro ou pedir apoio e ajuda.
4- Nomeie o que sente e reflita sobre o que
sente, reflita sobre seu próprio Eu.
5- Comunique ao outro as reflexões que faz
sobre si mesmo. Afirme seu Eu!
6- Ouça atentamente o que o outro fala dele
mesmo. Olhe-o diretamente. Afirme e receba o Tu que se
comunica!
7- Tome consciência de sua resposta interna
(sensação, sentimento, emoção) ao receber a comunicação da outra pessoa.
8- Expresse e comunique suas sensações,
sentimentos e emoções em relação à comunicação do outro.
Não fale dele, não o
julgue, não o analise, não o avalie; comunique apenas o que você sente
internamente! Ex: Eu me sensibilizo com sua dor, sua situação move também a
minha dor. Etc.
9- Só dê sua opinião quando o outro solicitar
alguma avaliação ou conselho, porém comece sempre expondo como você se sente no
momento. Ex: Eu me sinto sensibilizado com sua pessoa e como você está me
permitindo, gostaria de dizer-lhe que.............
10- Clareie para você mesmo o que você percebe,
o que você sente e o que você pensa sobre o outro. Você pode
percebê-lo cabisbaixo, triste, sentir-se preocupado com ele, e talvez esteja
muito interessado em saber o que se passa. Não interprete o estado dele.
Seja franco e direto: Eu o percebo
cabisbaixo, estou preocupado com seu estado e gostaria de saber o que se passa
com você, se você se sentir à vontade para expor!
É importante aceitá-lo não
disponível para se expor!
11- Desfrute de seus momentos de intimidade
emocional, não importando onde você esteja: num bar, numa roda de amigos, numa relação amorosa, num momento de sua
espiritualidade, etc.
Sobre o Artigo
Dimas Calegari é médico psiquiatra conhecedor dos conceitos de W. Reicha a mais de 30 anos. Terapeuta em Core Energetics. Desenvolveu a terapia energética corporal.
Sobre a Autor(a)
Psiquiatra, especializado em terapia reichiana.
Fale com a Autor(a): contato@brasil-coreenergetics.com.br